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O Que o Yoga Realmente Propõe Quando Falamos em Meditação

Vamos meditar para não medicar!
Vamos meditar para não medicar!

Se meditar, dentre muitas técnicas e escolas distintas, sugere-nos essencialmente investigar determinados aspectos da mente que opera sobre a realidade, o que propõe o Yoga nesse sentido?


Primeiro, precisamos compreender a meditação protagonizada pelo Yoga, pois a meditação yogui, tal como apresentada em detalhes nos Yoga Sutras — texto principal da tradição yogui segundo os dárshanas (pontos de vista) oficiais do hinduísmo —, não nos parece ser uma simples técnica de relaxamento ou presença mental, mas um refinamento progressivo da atenção, da inteligência e da consciência.


Ela é um treinamento sistemático das funções mentais, capaz de reorganizar a percepção sobre a realidade, reduzir a dispersão mental e conduzir o praticante a estados mais elevados de clareza, discernimento, consciência e integração com a estrutura da realidade.


Na tradição do meu professor, Sri Dharma Mittra, a prática meditativa não surge isolada, como uma técnica fechada em si mesma. Ela nasce de uma continuidade, de uma preparação: postura estável, respiração regulada, hábitos saudáveis, observação ética da própria vida e redução gradual dos excessos sensoriais. O corpo — físico e mental —, torna-se mais estável e quieto, a respiração mais sutil, e a mente começa, pouco a pouco, a deixar de reagir compulsivamente aos estímulos do mundo externo.


É nesse contexto que surge o protocolo chamado Samyama, composto por três estágios inseparáveis: pratyahara, dharana e dhyana.


Pratyahara é o recolhimento dos sentidos, o controle sensorial. Isso, de forma alguma, significa rejeitar o mundo, mas interromper, ainda que temporariamente, a necessidade constante de estímulos e a quase inconsciente submissão aos desejos do mundo. O olhar deixa de procurar distrações, a audição deixa de perseguir ruídos, o corpo deixa de responder automaticamente a cada impulso. É como se a energia que normalmente se dispersa para fora fosse chamada de volta para dentro de nós. Em termos modernos, é uma forma de reorganização neurológica da atenção: o praticante aprende a sair do excesso de estímulos e a recuperar soberania sobre sua própria vontade mental. Estudos associados ao conceito de pratyahara mostram redução do estresse, maior percepção corporal e melhora da autorregulação emocional.


Quando os sentidos são controlados e se recolhem, surge dharana. Dharana é a concentração linear em um objeto, aquilo que chamamos, no Ocidente moderno, de mindfulness. A mente, que normalmente salta de objeto em objeto, aprende a permanecer presente no ato de perceber. O foco pode estar na respiração, em um mantra, em uma imagem mental, em uma região do corpo, em um símbolo etc. Aqui ainda existe esforço. O praticante percebe distrações, perde o foco, retorna. Perde novamente, retorna outra vez. É uma disciplina de permanência. Patanjali, autor dos Yoga Sutras há mais de dois mil anos, define dharana como a fixação da mente em um ponto.


Com a continuidade desse esforço, a concentração deixa de ser interrompida. Surge então dhyana. Em dhyana, a mente já não precisa lutar para permanecer focada; ela flui naturalmente em uma direção única, como um rio que segue seu curso sem obstáculos. O observador e o objeto observado começam a se aproximar, em um tipo de simbiose cognitiva. Ainda existe a consciência de que “eu estou aqui, meditando”, mas já não de forma deliberativa, pois não há tanto atrito interno ou ruminação mental. A meditação torna-se contínua, silenciosa e profunda. Patanjali descreve esse estado como um fluxo ininterrupto da mesma percepção.


Quando pratyahara, dharana, dhyana e, por último, samadhi (hiperconsciência) se unem sobre um mesmo objeto, temos o Samyama. Samyama é a arte de mergulhar completamente em algo até compreender sua natureza, sua essência e sua substância. Segundo Patanjali, por meio do domínio do samyama surge prajna, a inteligência intuitiva, uma forma de conhecimento direto e profundo. Nesse ponto, não se trata exatamente de pensar sobre algo, mas de conhecer algo por inteira comunhão com ele.


O ápice desse processo é samadhi. Samadhi, para muitos, pode parecer um transe ou uma fuga da realidade. Mas, em verdade, é um estado de absorção total no qual a mente se torna tão estável e transparente que reflete apenas o objeto de contemplação, sem as distorções habituais do ego, das memórias, dos desejos, das paixões ou das vontades desordenadas. Aos poucos, desaparece a separação entre quem observa e aquilo que é observado. Resta apenas a experiência pura do conhecimento mais autêntico, que nasce da comunhão perfeita com a realidade.


Vamos meditar para não medicar!

Nos estágios mais elevados, que requerem muitos anos de treinamento árduo, até mesmo o objeto de meditação desaparece. Patanjali chama isso de nirbija samadhi, o samadhi “sem semente”, em que a mente deixa de depender de qualquer suporte. Não há imagem, pensamento, sensação ou percepção indireta. Há apenas consciência pura.


É dessa experiência repetida de silêncio, estabilidade e lucidez que nasce kaivalya, o objetivo final dos Yoga Sutras. Kaivalya, por sua vez, não é isolamento — tradução literal do termo — no sentido negativo, como alguém que se afasta do mundo, mas liberdade absoluta. É o estado em que a consciência deixa de se confundir com os movimentos ilusórios da mente, com os condicionamentos inadequados que impedem uma vida que valha a pena e com as oscilações emocionais que desorganizam a mente. Kaivalya é a libertação de estados inferiores de existência, de uma mente que, estando em devaneio, produz sofrimento, dor e angústia.


O praticante continua vivendo, trabalhando, amando e enfrentando desafios, mas deixa de ser arrastado por eles. Ele permanece centrado em algo mais profundo e permanente: o próprio dharma — aquilo que ele nasceu para ser e realizar no mundo, o seu dom natural que, agora, é praticado e ofertado ao mundo.


No fim, meditar não é simplesmente sentar em silêncio por um tempo considerável — embora isso também seja ótimo. Meditar é aprender a retirar energia dos excessos nos quais nos colocamos, direcionar a atenção ao que realmente importa, sustentar presença na vida que vale a pena e, pouco a pouco, descobrir que existe em nós algo que permanece intacto, mesmo em meio ao ruído incessante do mundo: o nosso espírito, o púrusha.


A pergunta é: quanto tempo ainda você pretende viver apenas reagindo à vida, sem jamais experimentar a profundidade do próprio silêncio e a verdade da própria vida?


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Felipi Forbeci Freo
há um dia
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Obrigado pelos ensinamentos

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